O que fazer em Piranhas – Alagoas
Piranhas é uma cidade simpaticíssima de Alagoas, banhada pelo Rio São Francisco, com um centrinho histórico bonito, muita animação e comida gostosa. É uma cidade que pode ser visitada sozinha ou num roteiro pelos caminhos do Velho Chico, em conjunto com a criativa Ilha do Ferro, num roteiro pela rota do cangaço ou combinada com as paradisíacas praias alagoanas. Não falta o que fazer em Piranhas e é isso que vou contar um pouco por aqui.
A História de Piranhas
Piranhas começou a ser povoada no século XVII e seu crescimento foi impulsionado pelo estabelecimento da navegação à vapor pelo Rio São Francisco que ia de Penedo – uma das mais antigas cidades do Brasil e ponto estratégico para acesso ao interior alagoano – até Piranhas, no sertão, possibilitando a circulação de mercadorias. Mais tarde, com a construção da linha de ferro e a chegada do trem, Piranhas se firmou como um importante centro comercial.
Nem a navegação nem a viagem de trem existem mais como antes, mas o Velho Chico continua sendo o centro das atividades – agora turísticas – e os resquícios dos tempos coloniais continuam vivos na arquitetura do centro histórico, inclusive na bonita estação de trem preservada de frente para a Torre do Relógio.
Mas foi em 1938 que Piranhas ficou realmente conhecida, porque foi nessa data que Lampião, Maria Bonita e mais um grupo de 8 cangaceiros sofreram uma emboscada e foram mortos na Fazenda Angicos, do outro lado do rio. Suas cabeças foram cortadas e horrorosamente expostas em Piranhas.
Hoje a cidade é a terceira mais visitada de Alagoas por pessoas que querem ver suas belezas naturais, se deliciar no forró na praça, navegar pelo rio São Francisco ou conhecer a Rota do Cangaço.
A Rota do Cangaço em Alagoas
Não sei bem como nomear o cangaço, já que alguns consideram um movimento social, outros simplesmente uma organização criminosa, mas fato é que o cangaço foi o nome que se deu à um grupo de pessoas que se uniu para viver à seu modo, num universo paralelo em que o bando saqueava e matava livremente.
Para alguns, os cangaceiros foram resultado do meio. Uma resposta à dureza da vida no sertão, à ausência do Estado, à desigualdade social e à violência por terras e bens. O cangaço seria então uma forma de rebelião, de reorganização e união entre os membros do bando. O próprio Lampião se junta ao seu primeiro bando para vingar a morte dos pais numa disputa por terras e é essa a história da maioria dos membros do seu bando, que posteriormente se torna famoso e eleva Lampião ao mais famoso líder do cangaço.
Muitos veem os cangaceiros como heróis, uma coisa assim meio Robin Hood, o que não parece exatamente correto já que eles não distribuíam nada para fora do próprio grupo e eram chocantemente violentos em algumas ocasiões sem qualquer razão ideológica.
Também é inegável que em algum ponto o cangaço se misturou ao governo, aos poderes que dominavam a região e até ao exército – Lampião foi nomeado “capitão do exército patriótico” ao se juntar aos combatentes da Coluna Prestes nomeados pelo governador e Padre Cícero. Ta, até esse exército aí era alternativo, mas o ponto é que o cangaço não era tão escondido assim e acessava armas e munição fartamente, então não dá para dizer que era efetivamente combatido pelos canais oficiais. Talvez tenha sido até usado.
Fato é que representam bem o estereótipo do homem forte nordestino. Destemido, duro, viril, que remove obstáculos e luta bravamente. E esse homem idealizado persiste até hoje no nosso imaginário.
Reforça esse nosso imaginário o visual do cangaço. Na criação de seu estilo de vida alternativo, os cangaceiros criaram sua própria indumentária toda trabalhada nos detalhes que, embora muitos atribuam à presença feminina do bando, era influenciada pelos homens, em especial pelo próprio Lampião. O estilo é até hoje marcante, sendo revisitado e representa o sertanejo nordestino. Quem nunca viu um político em campanha com o chapéu símbolo do cangaço?
Também desperta muitíssimo interesse a presença feminina nos bandos. Maria Bonita formava com Lampião nosso Bonnie e Clyde, o amor bandido, que mesmo torto parece lindo. Maria Bonita e Dadá, as mais conhecidas cangaceiras, representam a força e coragem da mulher nordestina e para muitos tantos, significam a coragem de viver a vida como queriam.
Mas talvez olhando de perto não tenha sido bem assim. As mulheres se juntavam ao bando em sua maioria por vontade própria, por amor, fugindo de vidas difíceis ou em busca de uma certa liberdade. Mas deviam obediência aos maridos, eram vigiadas e viviam uma vida muito dura para lá e para cá no sertão. Não era assim, O grito de independência.
Enfim, já divaguei um bocado aqui, mas é porque não importa a nossa opinião sobre o cangaço, ele foi inegavelmente um dos movimentos mais emblemáticos do Brasil e saber mais sobre sua história é fascinante! Piranhas é um ponto de partida maravilhoso para conhecer a Rota do Cangaço, visitando o Museu do Sertão na antiga estação de trem, além da Gruta Angicos onde eles foram emboscados e ouvir mais sobre como os cangaceiros atuaram pela rota do cangaço de Pernambuco ao Ceará.
Fica aqui para saber mais sobre como visitar a Rota do Cangaço em Piranhas.
O que fazer em Piranhas – Alagoas
Com essa introduçãozinha básico sobre a cidade e o cangaço, vamos ao que interessa, que é realmente o que fazer em Piranhas.
1) Passear pelo centro histórico
Não tem como visitar Piranhas e não passear pelo seu centro histórico, tombado pelo Iphan. Dezenas de casinhas coloniais coloridas cheias de detalhes deliciam os olhos. Aliás, quando foi que paramos de fazer casas gostosas como essas e nos enfiamos no mar de caixas cinzas que vivemos???? Aproveite para alegrar sua vida com essa beleza. Ande livremente, entre em lojinhas, bares e restaurantes à vontade.
Na antiga Estação de Trem, como mencionei acima, fica o Museu do Sertão, que é pequeno, mas interessante. O prédio é lindo e está bem preservado. Em frente, a pracinha é ornamentada pelo Centro de Artesanato e pela linda Torre do Relógio, que tem um café com uma vista bonita da cidade.
Na Praça Central, as casas históricas abrigam vários bares e restaurantes e aos sábados rola um forró com direito à apresentação temática do cangaço por volta das 20hs.
Eu achei sensacional a organização da night na Praça Central de Piranhas. Todos os bares e restaurantes colocam mesas na praça e o público de todos curte o mesmo palco, ou seja, não é aquele festival de músicas aleatórias disputando atenção, é tudo uma coisa só. Quem quer, dança – pessoal sobre no palquinho, baila com os dançarinos, é lindo – quem não quer pode ficar sentado, comer e beber ou apenas caminhar. Tudo ao ar livre, com as árvores cheias de luzinhas, grátis… é praça servindo à razão da sua existência, que é permitir que todos a aproveitem e usem em conjunto.
Na Praça Central você vai encontrar basicamente comida de bar, não achei nada especial e inclusive comi uma tapioca no Bafo de Onça que definitivamente não recomendo. Mas para tomar uma cervejinha, drink ou cachacinha todos são ótimos – com mais destaque para o Sertão Vai Virar Mar, que é bem bonito e a Cachaçaria Altemar Dutra, que tem uma carta de cachaças da região e mineiras.
Da Praça Central você pode descer pra prainha de Piranhas – que fica lotada nos finais de semana e tem alguns restaurantes – e pro atracadouro de barcos, onde há uma estátua de Altemar Dutra, um ilustre visitante da cidade reverenciado até hoje. Parece que os piranhenses são todos sentimentais demais. ;D
Numa parte mais alta com vista para a Praça Central fica a Praça do Giradouro, outro lugar que achei incrivelmente bem organizado. Nele, vários food trucks pintados lindamente com temas da cultura local oferecem todo tipo de comida por preços justos e com boa qualidade. Tem de escondidinho à hamburguer e dali dá para ouvir o forrózão igualmente.
No canto da Praça do Giradouro fica o Centro de Convenções Miguel Arcanjo de Medeiros, instalado no antigo armazém de sal e onde sempre há eventos.
Além disso, a cidade tem algumas igrejinhas bonitas como a Nossa Sra. da Saúde e a Nossa Sra. do Bonfim e o Palácio Dom Pedro II, que recebeu esse nome porque o próprio visitou a cidade em 1859 e se hospedou ali. Foram nas escadarias do Palácio que foram expostas as cabeças dos cangaceiros naquele ritual super macabro, mas atualmente o espaço foi transformado em um conservatório de música, com outra energia!
2) Mirantes
Piranhas também tem 2 mirantes: o Mirante da Igreja Nossa Sra. do Bonfim e o Mirante Secular. Escadarias sem fim levam até eles, mas para nossa sorte, também dá para subir de carro até o Mirante Secular – digo isso porque subir naquele calorão é para os fortes.
Para o mirante da igreja a escadaria começa praticamente ao lado da Praça Central, fica para cima da Pousada Maria Bonita.
Para o Mirante Secular a escadaria é na direção oposta, não tem como não vê-la lá no fundo, mas a estrada da entrada da cidade leva até a porta. A vista daqui é mais bonita, porque nos dá uma dimensão diferente da grandeza do Rio São Francisco.
O mirante tem um restaurante e dizem que fica bem animado e cheio nos finais de tarde, mas estive lá numa segunda-feira qualquer e estava fechado, então não sei dizer como é.
3) Curtir o Rio São Francisco
A gente não vai até a beira do São Francisco só para passear na cidade, né? Conhecer e curtir o Velho Chico faz parte do roteiro e você pode fazer isso nos passeios “obrigatórios” que já conto abaixo, ou por conta própria.
Como comentei, no centro de Piranhas tem uma prainha, literalmente uma faixa de areia na beira do rio e é sempre bom ficar na parte arenosa, porque as piranhas e pirambebas (um peixe primo das Piranhas que também gosta de dar umas mordidas) preferem a lama e não visitam muito a areia. Bem, então é só chegar com sua canga ou cadeira e curtir, mas você vai dividir o espaço com muita gente, barcos e caixas de som.
Algumas pousadas, como a Trilha do Velho Chico, tem acesso à pequenas “prainhas”, regiões do rio em que pedras formam um tipo de barreira natural e uma região tranquila para um banho.
Aqui, gente, reforço que o rio é uma força incontrolável da natureza. Tem correnteza, tem piranhas e outros perigos que nós visitantes desconhecemos. Siga as instruções dos locais, não mergulhe ou entre no rio em locais que não tem ninguém nem sem perguntar se é seguro. E procure ficar nas partes arenosas e rasas.
Você pode contratar um barqueiro para um passeio com paradas em regiões do rio próprias para banhos ou para ir em algum dos restaurantes que ficam na beira do rio e tem áreas deliciosas para passar o dia. Além do Espaço Angicos e do Castanho, mais conhecidos e dos quais falo abaixo, há outras opções em que se pode chegar de barco (sempre mais gostoso porque ainda tem a navegação) ou de carro mesmo. Esses restaurantes montam um tipo de “cercadinho” no rio, permitindo um banho seguro, além de terem espreguiçadeiras e ótima comida.
Algumas opções de restaurantes acessíveis de carro ficam oficialmente na vizinha Canindé de São Francisco. São o Canyons do Gavião (o mais próximo do Cânyon do Xingó e de onde eventualmente pode ter algum barco para levar até lá, mas não há certeza de nada, então não conte com isso se quiser visitar o cânyon), o Fazenda Monte Cristo e o Karrancas, que fica perto do Museu de Arqueologia do Xingó, que parece ser interessante.
O Monte Cristo e o Karrancas são usados também de ponto de partida dos barcos que vão ao Cânyon, porque em razão da represa de Canindé, os barcos não passam direto de Piranhas para o Cânyon, eles sobem na represa e pegam os passageiros já na parte alta do rio, onde ficam os restaurantes. É preciso contratar no dia anterior lá em Piranhas.
4) Visitar os Cânions do Xingó
Um dos passeios mais famosos de Piranhas é a visita aos Cânions do Xingó, que apareceu na novela Cordel Encantado e que, como acabei de contar, fica na verdade em Canindé de São Francisco.
Basicamente toda essa parte alta do rio é um cânion, mas após a construção da represa as águas baixaram um pouco e o que efetivamente chamam de cânion do Xingó e a Gruta do Talhado – um trecho específico e menor – deixou de ficar submerso. A Gruta do Talhado é linda, um paredão bem marrom com águas verdes cristalinas e plantas vivendo em lugares que parece impossível, mas ajuste as suas expectativas: é um trecho bem pequeno, estreito, acessível somente com barquinhos a remo e o passeio ali dura uns 20 minutos.
Vale a pena? Sim! Vale a pena o passeio como um todo, você vai navegar pelo São Francisco vendo os paredões e o céu refletindo nas águas, depois vai visitar as piscinas e o cânion e em seguida parar em um restaurante para um almoço gostoso e uma tarde entre mergulhos e drinks. Quer vida melhor?
O passeio funciona assim: você vai até o ponto de encontro após a represa, com seu carro, de táxi ou de van se contratar um passeio nesse formato, daí pega o barco e navega até as piscinas, de onde pega o barquinho a remo até o cânion (é opcional e custa cerca de R$ 20,00 por pessoa, pagos em dinheiro), volta para curtir um pouco as piscinas e depois vai para o restaurante onde termina o dia.
As piscinas são estruturas flutuantes construídas no meio do rio. É uma plataforma com um cercadinho, numa área onde dificilmente você mergulharia se não fosse a estrutura. É fundo, mas tem bóias, escada, escorregador… até quem não sabe nadar consegue desfrutar.
Depois de um tempo nas piscinas, você segue para o restaurante combinado no passeio. Normalmente é um daqueles que mencionei acima, sendo o Castanho o mais famoso atualmente e que foi o que visitei. Achei a comida, atendimento, e estrutura em geral ótimos, com preço justo.
Algumas dicas:
- O melhor horário para se deslumbrar com as cores da Gruta do Talhado é entre 11h e 12h30, pois a incidência solar direta deixa a água verdíssima. Obviamente é o horário em que todos os passeios chegam ao cânion e, portanto, fica lotado. Segui a dica da Luisa do Janelas Abertas e fui cedinho. Saí de Piranhas às 8h e às 10h já estava no cânion, que curtimos totalmente sozinhos. Ficamos quase uma hora também sozinhos na piscina até começar a chegar mais gente. Não quero parecer anti-social, ta gente? Mas é que é outra vibe, sozinhos tudo parecia monumental e bruto e quando chega a galera parece que estamos no clube.
- Você pode contratar um passeio coletivo de catamarã ou na lancha do Castanho. Tem várias opções lá em Piranhas, os catamarãs custam cerca de R$ 140,00 por pessoa, alguns tem almoço self service por um preço mais acessível. Achei o esquema da lancha do Castanho interessante para quem está sozinho ou em casal, porque vão menos passageiros e é mais fácil se juntar com outras pessoas (eles que juntam). Se não tiver no mínimo 4 pessoas o valor da saída é de cerca de R$ 640,00 dividido por quantas pessoas tiver (1, 2 ou 3). E quem vai de lancha pode acessar a área exclusiva do Castanho (uma piscina com borda infinita na beira do rio que para os demais é pago à parte). Só achei meio complexo o contato com eles para reservar, mas o pessoal da sua pousada certamente pode ajudar.
- Outra opção é contratar um barco privado. Custa entre R$ 600 e R$ 800 e levam em geral até 6 pessoas – e você pode tentar se juntar com outros passageiros dispostos a dividir. Acabei indo assim para poder ir cedinho e curtir tudo no meu tempo. Fui com o Mateus – 82 98858-6675 – indicado por umas garotas que conhecemos na pousada (e ele faz outros passeios). Foi tudo perfeito, ele é muito responsável e tranquilo, nos pegou pontualmente no Monte Cristo, deu opções de restaurantes para depois do passeio e nos deixou curtir a tarde toda lá no Castanho na maior paz.
5) Passeio para Angicos – Rota do Cangaço
Esse passeio vai te levar, na realidade, até Sergipe, onde fica o Espaço Angicos, acessível apenas de barco. É lá que fica a Gruta do Angico, onde o bando de Lampião foi emboscado e assassinado e é esse o trajeto conhecido como “a verdadeira Rota do Cangaço”.
É um passeio diferente, para quem se interessa pela história do cangaço. E duvido você não se interessar.
Basicamente consiste em navegar até a fazenda, que tem um restaurante com prainha cercada no rio, skibunda, parquinho, árvores, redes, muitas espreguiçadeiras e comida boa. É tipo um beach club e sim, pensei muito que isso parece meio esquisito, mas acho que os tempos são outros e os lugares precisam trasmutar suas energias.
É um espaço bem gostoso para passar o dia, e é por isso que sugiro que você curta com calma, sem outras paradas no mesmo passeio – a maioria para primeiro em Entremontes e pode também ir até a Ilha do Ferro e a parada aqui acaba sendo muito rápida e deixando um gostinho de “queria mais”.
Como Rota do Cangaço, você visita a casinha que replica como vivia o Coiteiro Pedro Cândido (você vai saber mais lá) e uma trilha de 600m que leva até a Gruta do Angico. A trilha é curta e fácil, acho que demoramos 1h para ir e voltar e o que cansa mesmo é o calor.
O restaurante organiza a cada hora as saídas para a trilha – paga à parte, cerca de R$ 30,00 por pessoa – com um guia que vai dando uma geral sobre o que era o cangaço e ao chegar na gruta conta como foi o massacre. Algumas coisas você entende porque está ali, pois mesmo que conheça a história, é difícil imaginar sem ver o entorno. É bem legal, apesar de consideravelmente mórbido – desculpa, eu faço muito essas reflexões se faz sentido visitar lugares de tragédias e normalmente prefiro não ir, mas achei interessante aqui.
Na minha estadia na Ilha do Ferro tinha lido Cangaço – A milícia do Coronelismo, do Julio Chiavenato e acho que vi tudo com outros olhos, mas foi um complemento muito interessante, fica aí a dica de leitura também. Aliás tem muitos livros bacanas sobre o cangaço e os cangaceiros como: Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço, Cangaço: entre mitos e realidades, Apagando Lampião, Estrelas de couro (sobre a estética) e vários outros.
Atenção para o seguinte: o Espaço Angicos não abre às segundas e fecha às 16h, sendo a última saída para a trilha às 14h, fique atento aos horários. O ideal é chegar lá cedo, já fazer a trilha e depois curtir o dia relaxando.
Os passeios de catamarã custam cerca de R$ 100,00 por pessoa e saem de Piranhas mesmo. Mais uma vez, seguindo a dica da Luísa, fomos sozinhos de voadora, que custa cerca de R$ 300 a R$ 500. Fomos com o Carlinhos – 82 987285158 -, indicado por ela e que também foi ótimo barqueiro e faz outros passeios. Ele nos deu muita liberdade de horários e para escolhermos se queríamos ficar só em Angicos ou fazer uma parada. Como o pessoal da pousada insistiu que era gostoso passar o dia tranquilo em Angicos e que podíamos ir para Entremontes de carro, escolhemos fazer separado e foi totalmente acertado!
6) Passar o dia em Entremontes
Entremontes é geralmente uma parada, como eu disse. Os barcos param ali para o pessoal conhecer o famosíssimo bordado local e logo seguem para Angicos, pouco adiante na margem oposta.
Mas os donos da pousada disseram que era um lugar gostoso de passar o dia e algumas hóspedes que conhecemos assinaram embaixo, dizendo que gostaram muito da prainha de lá e recomendavam passar o dia tranquilos. Foi o que fizemos e foi realmente uma delícia.
O trajeto de carro a partir de Piranhas é tranquilo e demora uma meia hora. Tem um trecho de terra, mas de fácil acesso.
Ao chegar no povoado, demos umas voltas pelo ateliês, que são as casas das bordadeiras que adoram um papo, é só começar e a conversa flui. Paramos também na Casa do Bordado e fizemos umas comprinhas porque é irresistível.
Entremontes ficou conhecida como a maior produtora de redendê, um tipo de bordado mais comum por ali, por conta de um projeto da finada ex primeira dama Ruth Cardoso, que mapeou centros de artesanato em todo o Brasil e ajudou a organizar associações, planos de capacitação e divulgação.
Até hoje as organizações existem e fortalecem o trabalho dos Artesãos. Em Entremontes as bordadeiras continuam unidas, mas também se seguiu um outro movimento, mais atual, de liberdade de estilo, introduzindo outros tipos de bordado e permitindo que outras formas de criação e trabalho surgissem.
Um dos símbolos dessas mudanças é a loja Entreartes, capitaneada por Miguel, de família tradicional bordadeira e provavelmente o único homem de Entremontes que se dedica ao bordado. Simpaticíssimo, Miguel conta sua história, a da família e de Entremontes que são entremeadas pelas linhas e agulhas, mostra o trabalho excepcional que faz e se você não sair de lá com pelo menos uma comprinha, parabéns, você é muito resistente! Tem umas roupas lindíssimas!
Eu amei todos os bordados. Tenho ligações afetivas com as agulhas e amo um visualzinho retrô. Tenho onde pôr? Não. Voltei cheia de sacolinha? Sim. E só não saí com mais por limites financeiros, por assim dizer.
Terminado o rolê dos bordados, rume para a prainha de Entremontes, que tem uma faixa grande de areia e um cercadinho largo. Realmente dá para curtir horrores como avisaram as amigas da pousada. De novo, estávamos nós e um ou outro local que ia e vinha do rio. Acho que no fim de semana deve ficar mais cheio, mas quando estivemos lá foi daqueles dias de paz perfeitos.
Na prainha tem uns restaurantes e bares. Ficamos nas cadeiras do Ana Bar, em que o pessoal foi muito legal, comemos uns doces maravilhosos, a cerveja estava geladíssima, tudo ótimo. Só não almoçamos ali porque almoçamos antes no Maria Gogó.
O Maria Gogó fica na rua que desce para a prainha e tem uma vista privilegiada de dentro e das mesinhas na calçada, comida maravilhosa e preços justíssimos. Comemos um peixão divino lá!
O dia acaba quando você cansou da paz, do banho de rio, da beleza dos bordados.
7) Comer no Nalva Cozinha
O Nalva para mim é uma atração de Piranhas.
Um restaurante autoral, com pratos surpreendentes e releituras dos clássicos locais. Achei tão bom que fui 2 vezes!
Aproveitei para experimentar os pratos de bode, que nunca tinha comido. Num dia experimentamos o arroz de bode, que achei maravilhoso, e no outro provamos da canela de bode com nhoque. Se eu disser que super curti esse negócio de bode, estarei mentindo, porque achei meio doce e não curto tanto carne adocicada, mas foi um deleite como experiência.
Provamos também o arupemba, um prato deles que é muito bom, mas o que realmente fez a gente voltar 2 vezes foi o terrine de rabada com mil folhas de macaxeira. Gente, não dá nem para explicar. Que coisa complexa, surpreendente e gostosa. Apenas provem e voltem e repitam.
Também tem vários pratos de peixes e frutos do mar.
Na primeira noite pedimos também uma entrada, porque são várias opções tentadoras. Comemos o acarajé sertanejo com maionese de cactos. Tava maravilhoso, mas era enorme! Quando os pratos chegaram já estávamos meio satisfeitos e os pratos eram igualmente enormes, então fica a dica: é melhor dividir.
Na segunda noite pedimos só os pratos e dividimos uma sobremesa igualmente grande. Foi a pedida.
Não é um restaurante barato, mas achei os preços totalmente compatíveis com o que oferece e justos. Já queria voltar. Rá-Rá.
O Nalva só abre para jantar e é bom reservar antes. Se precisar esperar um pouco, aproveite e visite a lojinha em frente, cheinha de artesanato regional lindo.

Acarajé sertanejo com capirinha para começar, terrine de rabada com mil folhas de macaxeira para amar o Nalva Cozinha Autoral em Piranhas!
8) Fazer um passeio até a Ilha do Ferro
Dá para fazer um passeio bate e volta de Piranhas até a Ilha do Ferro. Muita gente faz. Mas a navegação é mais longa e o tempo na Ilha do Ferro, curto. É o mesmo para quem faz no sentido contrário – vai só dizer que foi e voltar.
Não recomendo, de coração, porque a Ilha é mágica, é da calma, é do se deixar levar, como já contei nesse post sobre a Ilha do Ferro. Mas sei que às vezes a gente faz o que dá na vida e se você só tem essa opção, então visite. Conheça a Arte da Ilha do Ferro, nem que seja numa passagem rápida.
Mas nesse caso, aproveite o tempo na Ilha do Ferro para conhecer os Artesãos e deixe os mergulhos para outra hora. O rio é o mesmo em Piranhas.
Quantos dias ficar em Piranhas?
Bem, como você viu, tem muito o que fazer em Piranhas! Eu diria que o mínimo de tempo necessário na cidade é 3 dias inteiros: 1 para você ir até os Cânios do Xingó, um para fazer o passeio da Rota do Cangaço com Angicos e Entremontes junto e um para conhecer a cidade e um dos mirantes. Ajeite o jantar no Nalva e o forró na praça nessas noites.
Fiquei 4 noites e visitei Angicos e Entremontes separadamente, mas acho que um quinto dia teria caído bem para simplesmente ficar flanando, curtir mais a prainha da minha pousada e/ou conhecer mais lugares da região, como a hidrelétrica, os sítios arqueológicos (caminhada guiada) e até experimentar canoagem ou ver o pôr-dos-sol no cânion ou próximo à Entremontes.
Se você só tiver 2 dias, sugiro focar em um dos passeios ou encurtá-los para chegar em Piranhas e ter um tempo para conhecer o centro histórico e/ou um mirante.
Como chegar em Piranhas – Alagoas
Os aeroportos mais próximos de Piranhas são os Paulo Afonso, que só tem vôos ocasionais durante a semana, Aracaju e Maceió. De Aracajú e Maceió há ônibus para Canindé de São Francisco, assim como de algumas cidades de Pernambuco e de lá até Piranhas você vai precisar de táxi ou transfer.
A forma mais prática de aproveitar a região para quem quer conhecer os arredores é de carro. De toda a região é possível chegar lá por boas estradas, sendo 3h de viagem de Aracaju, 4h de Maceió e 6h de Recife, só para dar uma ideia, e é fácil alugar carro nos aeroportos.
No meu roteiro, voei de São Paulo para Aracajú, passei 2 noites, peguei o carro alugado no aeroporto e fui primeiro para a Ilha do Ferro, onde passei 5 noites e depois para Piranhas, onde passei mais 4 noites e retornei para Aracajú.
Fiz esse roteiro porque gosto de conhecer os lugares com calma e queria descansar um pouco também, mas há várias opções. Daria, por exemplo, para ficar menos dias na Ilha do Ferro e/ou em Piranhas e passar uns dias em Penedo (você sabia que Penedo é uma das cidades criativas da Unesco? Pois é, vem ler aqui!) ou em uma das muitas praias paradisíacas de Alagoas, inclusive em Maceió. Aí você escolhe!
Pousadas em Piranhas – Alagoas – Onde ficar
Escolhi ficar na Pousada Trilha do Velho Chico e acho que acertei. A Pousada fica um pouco fora do centro, cercada por natureza e na beira do rio, numa área em que pedras formam piscininhas seguras para nadar.
A pousada é bem simples, mas tinha ar condicionado – essencial para dormir naquele calorão – e um café da manhã muito saboroso e farto, além de ser silenciosa, fator muito importante para mim.
O pessoal da pousada também foi muito simpático e atencioso, assim como os hóspedes que encontramos e todos os gatos, burros e macaquinhos alegravam nossas manhãs.
Existem trilhas partindo da pousada, tanto pelo beira rio quanto pela estrada, na chamada Trilha da Linha Férrea, mas honestamente, achei calor DEMAIS para esse tipo de atividade. Não fui feita para aquele sol, inclusive não duraria meio dia como cangaceira, ia provavelmente morrer de insolação e pressão baixa. Rá-Rá. Talvez saindo bem cedinho seja agradável, se você for me conta.
Outras opções no centro são a Maria Bonita, a Meu Xodó e a Flor de Lins, além da Casa do Sertão, para quem prefere uma casa completa. Já mais afastados (no sentido de que talvez você precise de carro para chegar ao centro) tem os chalezinhos da simpática Suítes do Lampião, e os quartos do Reserva do Xingó e do Pedra do Sino, que são mais no estilo hotel convencional.
Você já tem tudo, hein? Só arrumar as malas e curtir!



















