Surpresas em Hiroshima

Pensei muito sobre incluir ou não Hiroshima no nosso roteiro. O que queria ver lá exatamente? Eu não queria simplesmente ver mais de perto quão horrível foi a bomba que tornou a cidade tão conhecida. Acho que queria ver que há vida depois de qualquer tempestade, mas valeria a pena ir tão ao sul tendo em vista que a maioria dos outros lugares que visitaríamos estava entre Kyoto e Tóquio?

O Japão parece pequeno, mas as distâncias são grandes e por mais que os deslocamentos sejam rápidos de trem bala, tomam tempo. Depois de muito pesquisar, decidi que poderíamos ir pelo menos um dia até lá, vindo de Osaka em umas 2hs de viagem.

Contrariei meu próprio aprendizado de que não se deve passar apenas uma noite numa cidade, principalmente quando você precisa viajar no outro dia cedo. Fica corrido, fica apertado e você se sente meio bobo fazendo “check” no que conseguiu ver, mas deu tudo razoavelmente certo.

Japão Hiroshima

A linda estátua do Memorial da Paz.

O que fazer em Hiroshima

Em Hiroshima os 3 pontos de maior interesse são: o Parque da Paz com o Museu da Guerra e o A-Bomb Dome, que foi o epicentro da bomba; o Castelo de Hiroshima, que foi de onde a cidade nasceu e Myajima, que é uma ilha com o único Tori na água do Japão. É perfeitamente possível fazer isso em um dia, principalmente se você chegar bem cedo. Maaaas para fazer tudo isso em um dia, você acaba perdendo a delícia de fazer tudo com calma, refletindo, relaxando…

Se eu fosse revisar o roteiro hoje, manteria a visita à Hiroshima, acho que foi bacana, mas teria ou deixado 2 dias, sendo um para visitar Hiroshima e outro para visitar Myajima, ou teria feito um bate-e-volta de Osaka. Eu não teria dormido lá porque deu mais trabalho e demorou mais sair de mala e cuia, ir até o hostel deixar a bagagem e só depois começar a curtir a cidade. Além disso, como em novembro escurecia às 17hs, depois desse horário não dava para visitar mais nada. Só jantar e curtir a night (para quem aguenta), então daria tranquilamente para chegar à Osaka por volta das 22hs.

Japão Hiroshima Myajima

O Tori é um portal que indica ao peregrino a entrada em um santuário xintoísta e esse, em Myajima é o único na água em todo o Japão. Lindo!

Japão Hiroshima Myajima

Várias figuras para fazer fotos icônicas do Japão lá em Myajima. Samurai não podia faltar!

Estivemos em Hiroshima num sábado ensolarado. Chegamos cedo e já fomos para Myajima para aproveitar aquele dia quente e gostoso na ilha. Nós e metade da população japonesa. Gente, os japoneses passeiam MUITO. Nos locais mais conhecidos vimos muitos turistas estrangeiros, claro, mas a maioria era de japoneses. Tente não visitar os lugares mais turísticos nos finais de semana ou, se não der, tente pelo menos chegar cedo ou vai pegar todos os lugares muito cheios.

Para chegar lá é muito simples, um trem de 25min da JR e um ferry boat de 10min, e para quem tem JR Pass não precisa desembolsar nada (para quem não tem o trem custa USD 4 e o ferry USD 10 ida e volta).

Japão Hiroshima Myajima

Eu e o Gabriel na fotinha clássica! Milagre não sair mais uma legião de japoneses nela…

Japão Hiroshima Myajima

O Tori de lá e de cá!

A ilha é uma graça. Foi o lugar que visitamos que mais tinha cara de cidade litorânea, com uma ruazinha “principal” cheia de lojinhas, vendedores de ostra e uma orla deliciosa para um passeio. Seria mesmo um lugar muito bom para passar o dia com calma, caminhando, observando aquelas luzes lindas do mar sob o sol do outono, comendo as coisinhas de rua, vendo os cervos passarem (aqui também eles vivem soltos, como em Nara, mas em menor quantidade). Tem até um trekking até o topo da montanha da ilha que pelo que vimos tem um visual super bonito.

Nós caminhamos um pouco pela orla, fomos até o lindo Tori que fica na água, caminhamos até os templos, mas não entramos porque até a fila já cansava e… voltamos. Foi meio rápido mesmo, infelizmente. Ficamos com vontade de ter mais tempo e é por isso que eu sugiro que você vá para passar o dia todo, especialmente se o clima estiver bom.

Na volta de lá demos uma passada pelo Castelo de Hiroshima, mas não entramos. Já tínhamos visitado muitos lugares parecidos, já estava quase fechando e decidimos apenas apreciar a arquitetura linda. Por ali há um tipo de feirinha e muita comida de rua. Calcule ai mais umas 2hs batendo perna.

Japão Hiroshima

Lindíssimo Castelo de Hiroshima!

Por fim, fomos até o A-Bomb Dome, o prédio que foi o epicentro da bomba e que, ao contrário da maior parte das construções da cidade, permaneceu com as estruturas de pé. Olha, é bem impressionante. Dá um negócio na gente, parece que você está lá, no dia da bomba, de tão preservado. Você só lembra que não está lá porque em volta dele está a cidade. Bonita, alegre, cheia de vida.

Eu confesso que tinha criado toda uma história na minha cabeça e que era mais ou menos assim: Hiroshima seria uma cidade pequena, devastada pela bomba atômica, que subsistiu, embora nunca mais tenha sido gloriosa. As pessoas seriam tristes, assoladas pelas terríveis memórias da guerra. O lugar seria meio frio e a gente não poderia sorrir na rua em respeito à dor dos outros.

NADA A VER. Pura loucura da minha cabeça. Mas o legal de viajar na maionese desse jeito é que eu me surpreendi muito. Positivamente.

Japão Hiroshima

A-Bomb Dome. MUITO impressionante!

Hiroshima é uma cidade super grande. Ao contrário das cidades maiores que visitamos antes: Kyoto, que era toda meio marrom, e Osaka, que tinha mais prédios modernosos, lá em Hiroshima os prédios pareciam mais calorosos. Brancos, Azuis, laranjas.

As orlas dos 6 rios que cortam a cidade são limpas, arborizadas, cheias de bancos, sorveterias e cafés para um passeio delicioso de bike ou a pé, para ver o sol cair, a vida continuar. Ou fazer um passeio de barco, que também não tivemos tempo.

Além disso, o time de baseball que andava muito bem estava arrastando multidões, os skatistas estavam pelas escadas, as praças eram cheias de flores, as ruas são repletas de movimentadas lojas e restaurantes cheirosos. Uma cidade muito mais vibrante do que eu poderia ter imaginado, mesmo que tivesse pesquisado um pouco antes de ir (coisa que não fiz, como puderam perceber).

É óbvio que ali na Praça da Paz as pessoas tem um comportamento mais respeitoso. Rezam, ficam em silêncio. Mas tudo bem, pode sorrir, pode viver e ser feliz, pode falar alto na rua e rir dos turistas loucos.

A gente fica bem tocado lá, não tem como não ficar. Seja no epicentro ou no memorial ali ao lado, que é uma homenagem à uma criança que morreu em decorrência da radiação, seja no museu, onde você pode entender um pouco mais os acontecimentos.

É um tal de empurrar as lágrimas para dentro que dá até dor de cabeça. Mas ninguém fica lá chorando, embora seja evidente o esforço coletivo para manter a compostura. E isso é o mais legal.

Atrocidades e tragédias aconteceram e acontecem em toda parte. Temos que lembrar, superar e lutar contra. E o Japão fez isso em Hiroshima. Construiu uma estrutura para que a bomba nunca seja esquecida, mas reergueu a cidade, que hoje é incrível! E vida que segue, firme e forte, adiante. E até nós, os visitantes, nos sentimos compelidos a não deixar que a tristeza assole nossos corações, mas sim permitir que a resiliência nos inspire. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

Japão Hiroshima

As estruturas originais.

Acho que temos muito a aprender. Digo, os brasileiros. Esquecemos as tragédias e não fazemos nada para que elas não se repitam. Nem mesmo consertamos os estragos da tragédia, tamanha nossa letargia. Foi com esse sentimento que fui embora. E com um exemplo a seguir.

Você precisará de um tempinho para digerir tudo e para caminhar pelo museu, que é grande e bem cheio (entradas a USD 2).

Onde ficar em Hiroshima

Nós ficamos hospedados na Guest House Roku. Um hostel com quartos coletivos e individuais. Ficamos lá porque foi o lugar mais barato que encontrei (embora tenha custado USD 50 para 2 pessoas em quarto coletivo), porque era apenas uma noite e porque estamos mesmo viajando em modo econômico.

O Roku é uma casinha num lugar tranquilo, com um staff muito simpático e banheiros super limpinhos. Achei bacana que o bar que fica no térreo é aberto para os locais e rola uma integração legal não apenas entre os viajantes, como é comum nos hostels, mas também com o próprio bairro. Os únicos senões ficam por conta do quarto: lockers pequenos, colchões finérrimos, chão e camas de madeira que faziam muito barulho e no caso da minha cama, uma janela por onde entrou a maior luz logo cedo. Achei engraçado que a cama tinha cortina em todo o entorno para que você tenha privacidade, menos na janela. Deu para uma noite. Se você também for apenas passar uma noite, ou mesmo duas, sugiro que você leve apenas o básico para passar o dia. Nem shampoo, sabonete e pasta de dente você precisa levar, pois como em todos os lugares do Japão, você pode usar os que tem lá e que são bons. Assim não precisará ir até lá deixar a mala quando chegar e não terá problema com o locker.

A localização é boa e ruim ao mesmo tempo. O Roku fica a uma estação da Hiroshima Station, na linha JR que vai para Myajima, ou seja, é no caminho de um dos lugares legais para conhecer, é rápido de chegar e com o JR Pass não pagamos nada a mais. Por outro lado, fica um pouquinho afastado da área do Parque da Paz e do centro, onde ficam restaurantes, bares, baladas e lojinhas. Para nós foi muito prático, pois como estávamos com as malas, foi bem mais fácil nos deslocarmos apenas dentro da estação JR e só por uma parada já que para o centro precisaríamos pegar um Streetcar, que é bem pequeno e cheio (considere isso e as dificuldades com a sua mala que não canso de dizer, deve ser a menor possível numa viagem pelo Japão). De qualquer forma, acho bacana ficar nesta região central, para fazer mais coisas a pé.

Alguns hotéis legais pelo Centro: Park Side Hiroshima Peace Park (em torno de USD 60), Hotel Flex (em torno de USD 70,00),  APA Hotel Hiroshima-Ekimae Shashi (queria ficar nesse, diárias em torno de USD 100, mas com promoções sempre).

Japão Hiroshima

O Okonomiyaki de Hiroshima em preparação.

Japão Hiroshima

Hassei, um dos melhores Okonomiyakis de Hiroshima.

Onde comer o Okonomiyaki de Hiroshima

Para fechar o dia, fomos comer o famoso okonomiyaki de Hiroshima no Hassei, uma indicação. Uma indicação que todo mundo tinha também, pois estava lotado, inclusive com espera. Se quiser ir, sugiro fazer reserva, pois é meio escondido (endereço: 4-17 Fujimicho, Naka Ward), e não vale a pena caminhar até lá e dar de cara na porta.

O okonomiyaki, para quem não sabe, é uma famosa comida de larica japonesa. Tipo, alguém um dia pegou tudo que tinha na geladeira, jogou na frigideira e fez uma espécie de panqueca, chamou de okonomiyaki e virou prato oficial. Ai cada cidade transformou um pouco a receita e a de Hiroshima, por exemplo, além do insubstituível repolho, carnes, molhos e ovos, leva também macarrão frito. É bom e barato, mas é bem gororoba.

Em alguns restaurantes os ingredientes são entregues aos clientes que preparam seu próprio Okonomiyaki, mas no Hassei a gente senta em frente ao balcão e fica assistindo a preparação. O resto do cardápio é bem exótico, mas vimos alguns clientes muito entusiasmados com suas porções de fígado de galinha, pés de porcos e coisas desse gênero.

É isso, espero que você também se divirta e se surpreenda lá em Hiroshima!

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